sábado, 19 de abril de 2008

O Brasil parou por Isabella

Um crime contra uma criança é algo extremamente chocante. É um ser frágil e indefeso. Concordo que um caso como o de Isabella Nardoni cause a comoção da população. Mas desde que ela foi morta, há umas duas semanas atrás, vi coisas que me deixaram espantadas.

Primeiro, a condenação do pai e da madrasta - ontem ambos foram indiciados. Tudo bem, agora o resultado da perícia já foi divulgado. Mas e se não tivessem sido eles? E se a perícia tivesse encontrado vestígios de uma terceira pessoa no apartamento? Com que cara ficariam aquelas pessoas que, agora, devem estar falando "eu não disse?" Alguém ia lá beijar os pés dos dois pra pedir perdão?

Os dois foram ditos como culpados desde o começo. Sem prova alguma, uma delegada gritou "assassino". Se ela sabia que eram assassinos, porque não os prendeu? Por que, ao que me consta, quando você acusa alguém - e de um crime tão grave -, é porque tem provas suficientes que condenam a pessoa. Mas não. A população não tinha prova nenhuma. E mesmo assim, ia gritar na frente da delegacia, da casa, da puta que pariu. Pedia justiça. Mas de justas essas pessoas não tinham nada. Eram hipócritas que não hesitavam em julgar e condenar. Sim, todo mundo estava movido pela emoção. Muitas vezes meus olhos se encheram de lágrimas quando via algo relacionado a esse crime. Mas nem por isso apontei o dedo para alguém e falei "você é culpado". Não cabia a mim fazer isso. E também não cabia àquelas pessoas. Fico pensando quantos desses seres não estavam , lá pelo dia 20 de julho do ano passado, visitando o local do acidente da TAM.

A cobertura da mídia não poderia ser mais exaustiva. Já nem assistia jornal. Eram blocos inteiros reservados ao crime. E entrevistavam o vizinho, o porteiro, o cara do prédio da frente, o delegado, e filmavam o prédio como se ele de repente fosse falar "foram os dois", e falavam com o avô, com o primo do vizinho da dona do cachorro que passava por ali naquele instante. A dengue, o que é dengue? Tem gente morrendo de dengue. Tem criança morrendo de dengue. Criança como Isabella, mas Isabella é um nome, tem um nome, elas são números, são o 50, 67, cem. E em Jundiaí tinha a mãe que serrou os braços do filho. Mas ele não era Isabella, era um menino que teve os braços serrados pela mãe. E as 552 pessoas assassinadas na região metropolitana de Salvador em três meses também são simples números.

Os dois foram indiciados. A justiça a que vocês tanto clamavam foi feita. Mas foi feita da maneira certa, com provas e indícios. Não da maneira que vocês queriam, na base do dedo apontado para a cara, do uni-duni-tê, da emoção do momento. Vangloriem-se que vocês estavam certos, falem que vocês sabiam desde o começo que eram eles. E sigam em frente, pois o tempo não parou porque Isabella morreu.

Um comentário:

Rafael disse...

Tá ai.
Parabéns Mandy, você conseguiu traduzir em poucas palavras simples e diretas uma opinião que também compartilho.

Abraços