quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quando um MUSO se aposenta

"Adeus, adeus, adeus... palavra que faz chorar" - Noel Rosa

Alguns podem dizer que tanta comoção é exagerada, já que, tecnicamente, Loeb não deixará o WRC agora - inclusive tem chances de ser deca-campeão (???) ano que vem, mesmo correndo umas 4, 5 provas.

Mas fato é que 2012 marca o fim de uma era. Talvez não uma era com disputas acirradas e carros à Grupo B, mas uma era em que vimos a evolução de um verdadeiro gênio do rali.

Loeb brilhou não só no WRC. Mostrou valor também nas pistas, chamou a atenção de gente especializada em asfalto e já pode ser coroado com um dos melhores pilotos da história do automobilismo.

Para quem acha que Loeb só é muso desse blog por causa da beleza, charme e sedução, engana-se. Loeb é soberano. Bateu recorde atrás de recorde no Mundial de Rali, foi campeão mesmo tendo quebrado o braço antes de terminar a temporada, mostrou que quando se é Loeb, não precisa forçar para ficar acima da média.

Pode ser que seu tipo de pilotagem não agrade todo mundo. É compreensível. Já ouvi relatos de que a pilotagem dele é tão perfeita que começa a ficar sem graça depois de um tempo. A perfeição tem esse defeito: encanta, mas faz as coisas ficarem um pouco sem graça.

Mas mesmo que o WRC já não tenha ar de surpresas há anos por causa exatamente dele, não existe quem não lamente, pelo menos um pouco, a aposentadoria de um ídolo desses. A partir do ano que vem, uma nova história começa a ser escrita no campeonato. Melhor? Pior? Só o tempo vai dizer. Mas uma coisa eu sei: por muito tempo ainda sentiremos falta de algo, e esse algo responde pelo nome de Sebastien Loeb.

PS: Nenhum piloto consegue ser tão bem-sucedido sem um grande navegador. Daniel Elena merece boa parte dos louros desses nove campeonato. Afinal, para chegar até onde Loeb chegou, só com um gênio como Elena do lado.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O que uma fila com Mia Couto me ensinou

É engraçado como, às vezes, algumas coisas parecem fazer um sentido imenso, mesmo quando não fazem. Tipo ontem.

Peso absurdo nos ombros, pé ainda lesionado, aula de inglês rolando e eu lá na Cia. das Letras, no Conjunto Nacional, esperando por Mia Couto. Nem era a palestra, cheguei atrasada e tal. Era a tal sessão de autógrafos, mesmo, esse momento tão inútil em que esticamos um livro para um autor, ele assina, sorri, te devolve o livro pra você e fim. Assim, desprovido de emoção - pelo menos de uma das partes.

Embora eu não seja de pedir assinatura quando o escritor em questão não diz nada para mim. Tem lá o livro de Samantha Power, "with hope", também assinado por Carolina Larriera, viúva de Sergio Vieira de Melo. E tem o do Pedro Bandeira, para a "querida Amanda", e nesse querida vive uma intensa discussão sobre por que eu preciso acreditar no mundo - estou tentando, seu Pedro, estou tentando.

Mas voltemos ao Mia Couto, já que a história com ele também é longa.

"O último voo do Flamingo" - e voo em Moçambique já não tinha acento muito antes do novo código e blá -  fez parte da lista de livros da Cásper Líbero em 2007, ano em que, vejam só vocês!, também prestei vestibular. Não passei e roguei todas as pragas possíveis ao jornalista, mal aê, seu Cásper, não quis ofender.  Mas a lista de livros da Cásper é de tirar o chapéu. Livros e filmes, aliás. Coisa de quem quer uma análise mais aprofundada da arte de escrever, não só enfiar os clássicos guela abaixo. Naquele ano, além de Mia Couto, Manoel de Barros também fazia parte da lista. E Carandiru, se não me engano. Talvez Drummond, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Chico Buarque. 

A Cásper me ensinou a ter mais amor pela língua portuguesa. Depois disso, li mais Chico, li Lygia, me apaixonei perdidamente por Quintana e Manoel de Barros. Porque, que me desculpem os amantes de José de Alencar, mas se dependesse de Iracema, nada disso teria acontecido. 

(Claro, muito do mérito também via à professora de literatura do cursinho, que me ensinou muito de preciosismo e comparava Manoel sempre a uma bala de coco.)

Então parece que, apesar da tragédia que foi não passar no vestibular da Cásper, sonho de adolescência, eu aprendi muito com toda essa experiência. E um dos professores que me ajudou a passar por essa jornada não foi outro que não Mia Couto. Talvez não pessoalmente, mas por meio de suas sábias e preciosas palavras.

PS: é engraçado como a gente absorve algumas coisas. Hoje, vejo um pouco de cada um dos autores que tanto admiro no jeito de escrever. E ainda tem gente que alega não gostar de ler.  Para eles, cito minha professora de literatura do Ensino Médio: não existe essa de não gostar de ler. Existe é que as pessoas ainda não encontraram o livro da sua vida. Beijos, Edna!

domingo, 4 de novembro de 2012

Virando gente grande

A gente às vezes tem aquele sonho de casar com um cara rico e não fazer nada - ou melhor, fazer as coisas que a gente quer, sei lá, viajar, viver de leitura, filmes, etc - ou, melhor ainda, ter nascido em berço de ouro - e repete a história de viajar, ler, etc. Enfim, qualquer coisa que signifique não trabalhar porém ser podre de rico.


Mas aconteceu uma coisa engraçada durante essa semana. Tipo uma epifania. Foi uma coisa simples, o ato de sair do escritório para almoçar, mas aquilo, naquele momento, me trouxe muito mais que isso.

Eu tava ali, indo para um almoço que eu pagaria do meu próprio bolso - porque eu tenho um salário. Para alguém que já está no mercado faz tempo, isso pode não parecer nada. Mas eu era universitária até o ano passado e, apesar de já ter trabalhado, não era uma coisa concreta. É como se, por ainda estar na faculdade, classe média, etc, etc, eu tivesse um ~aval~ para não me preocupar muito com o meu dinheiro.

Mas aí, de repente, eu virei gente grande. Tenho um emprego - um emprego do qual eu gosto muito -, tenho um salário e aprendi a administrá-lo. Outro dia li um texto que falava mais ou menos sobre isso, no caso, sobre finalmente conseguir o seu cantinho. Eu tenho esse sonho de ter o meu cantinho, minhas coisas, meus livros, meu zilhões de gatos e tal, mas, por enquanto, outros planos fazem com que eu também me sinta mais independente, mais responsável. Planos pequenos mas que, para mim, são um paso enorme. Como: a viagem do ano novo. Besteira? Pela primeira vez vou fazer tudo com o dinheirinhos que eu ganho por causa do meu trabalho. A tintura e corte do meu cabelo. O almoço da semana, as saídas no fim de semana, o cinema, os livros, as maquiagens. O bar. A poupança para poder viajar em 2013 e ainda sobrar um pouquinho para ajudar na pós-graduação ou no curso de extensão. Coisas simples - mais que uma casa, pelo menos! - mas que já dão um gostinho de "putz, eu conquistei isso! Vou passar o ano novo com os amigos por causa do MEU trabalho".

Então eu fico pensando que, embora fosse ser bacana ter nascido rica para poder viajar pelo Brasil e o mundo vááárias vezes ao ano - eu me sentiria a pessoa mais milionária caso pudesse fazer isso -, poder guardar algum dinheirinho pra poder pagar alguma viagem legal do meu próprio bolso me parece muito mais gratificante. E eu não trocaria esse momento da vida nem por todo o dinheiro do mundo.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Um texto que não é só sobre cabelos

Dizem que uma grande mudança de vida vem acompanhada por uma grande mudança no visual, e vice-versa.

Nada disso passou pela cabeça quando eu resolvi entrar para o time das ruivas de farmácia, mas acabou que vida e cabelo se cruzaram e, sim, entrei para o ranking das "grandes-mudanças-na-vida-grandes-mudanças-no-cabelo".

É um desejo de criança. Achava o universo ruivo a coisa mais massa do mundo, venerava Lindsay Lohan (sim, é verdade) e sonhava com a cor 77 da Loreal todos os dias.

Foi assim que, lá pelo final de janeiro/começo de fevereiro - aliás, exatamente pelo final de janeiro/começo de fevereiro -resolvi pintar o cabelo.

Como são as coisas. A adesão à ruividez coincidiu com outro momento decisivo da vida. É daquelas horas em que a gente precisa se despedir, mesmo não querendo. Em que a distância faz-se necessária para evitar futuras dores - mas não evita, na verdade.

Já refleti longamente sobre isso por aqui. Mas não falei uma coisa: foi no dia em que fiquei ruiva que histórias de separação passaram a doer forte no peito. Qualquer uma. Do casal famoso que acabou o namoro à fulana que vai morar longe dos amigos. Fui viajar e a cada pessoa que eu me despedia nos meus 20 dias de mochilão, o peito doía cada vez mais. A cada lugar. A cada castelo. A cada paisagem. Uma lágrima chegou a cair quando me vi na King's Cross pronta para embarcar pra Edimburgo.

Foi quando fiquei ruiva que desaprendi ainda mais a me despedir. Cada tchau dói mais desde então. Assim como doem os nunca e os pra sempre, porque a gente acredita, mesmo sabendo que não é verdade.

Ao contrário do que eu esperava, passei a amar mais. Os amigos, a família, as viagens, a arte, a música, o trabalho. Porque, apesar da dor ser muito mais forte quando a gente se despede, a gente sabe que aproveitou cada momento - foi o Ale que me ensinou isso. A gente sabe que viveu.

As saudades apertam de vez em quando - e a essa altura do campeonato, já estou com os olhos cheios de lágrima, sorte que foi todo mundo almoçar fora. Mas aí eu olho pro espelho e percebo que preciso retocar o ruivo dos cabelos. E aí tudo volta a ficar bem.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Quando vi Elvis cantando

Um show de uma pessoa que já morreu é algo difícil de ser concebido. E de um morto há 35 anos, então, como proceder? Eu era uma das milhares de pessoas no Ginásio do Ibirapuera prontas para ver um dos quatro espetáculos de Elvis em São Paulo. "Elvis". Elvis já morreu, mas, ali, naquele palco, ontem à noite, parecia mais vivo do que nunca.

Mérito de sua banda, ou dos membros que sobraram. O tempo, afinal, passa para todos. Mas estavam lá alguns nomes fortes, como James Burton, The Imperials, Sweet Inspirations e o Steven Spielberg baterista - aka Robson Crusoé lá nos anos 70. Vou falar uma coisa para vocês: nunca um grupo de senhores me conquistou tanto quanto esse. Todos com uma energia de quem está fazendo algo por puro amor. Coisa linda de se ver. Saí de lá encantada por todos e triste porque, provavelmente, nunca mais tereia chance de vê-los em ação de novo.

Mérito da orquestra (OSESP?). Especialmente em An American Trilogy, uma das minhas músicas preferidas e que tem o instrumental mais foda que já vi. O flautista brasileiro não deixou nada a dever em seu solo, assim como a violinista em My Way. Tudo lindo, lindo, lindo.

Mérito da Elvis Enterprises e da 2Share, que produziram um show desses. O telão, o som, tudo faz crer que Elvis está ali, mesmo. A edição dos vídeos é surpreendente, com o cantor ~interagindo~ com a plateia o tempo todo. É um espetáculo.

Mérito, acima de tudo, de Elvis, que deixou um legado desses. Juntar gerações em torno de uma figura morta há 35 anos não é para qualquer um. Ninguém conseguiria explorar sua imagem tão bem se não houvesse nada para ser explorada. Minha mãe se emocionou com o show. Eu me emocionei. Minha irmã se emocionou. Foi uma coisa linda ver a plateia cantando Bridge Over Troubled Water, foi arrepiante ouvir Elvis cantando My Way ou os Imperials o acompanhando em How Great Thou Art.

Não importa o quanto eu escreva, nada vai descrever com exatidão o que foi a noite de segunda-feira naquele ginásio. O mais próximo que cheguei a isso foi, em um tweet, me localizar em uma ElvisWeek fora de época. Era amor, felicidade, emoção. Tudo junto para poder assistir a um verdadeiro espetáculo.

A única bola fora: o Uol decidiu divulgar um app convidando Cássio Reis para subir ao palco. Recebeu vaia, fiquei até com dó. Mas, que me perdoem as fãs dele, ninguém estava lá para ver o cara. Total #fail.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Rali, décimo ano

No final das contas, precisou de apenas um motivo para eu optar por fazer jornalismo: a vontade de ver o rali crescer, evoluir e conquistar cada vez mais espaço na imprensa. Do alto dos meus 12/13 anos de idade, eu queria mudar a mentalidade da imprensa esportiva e enfiar-lhes rali guela abaixo, embora meu sonho à época fosse escrever para uma revista ESPECIALIZADA no tema.


Cresci, evoluí, abracei o jornalismo, parti para um mundo novo da comunicação, hoje flerto cada vez mais com a publicidade. Trabalhei em site de automobilismo, escrevi matérias sobre rali mas, na realidade, nunca estive presente profissionalmente nesse esporte. Tentei, mas tudo tem seu tempo.

Mas, independente dos sonhos malucos daquela garota de 13 anos, o rali também cresceu. Em dez anos, vimos o Sertões, exemplo máximo do esporte no Brasil, assumir a responsabilidade como etapa do mundial do mundial de motos e, em seguida, do de carros. Recebeu estrelas de grandeza maior como Marc Coma, Cyril Després, Nasser Al-Attyah, Giniel De Villiers, Carlos Sainz (tks, Felipe!) para chegar em 2012, com a grande lenda Stephane Peterhansel integrando a lista de inscritos da prova. Nesses dez anos, o Sertões firmou-se como segundo maior rali do mundo, nada mal para um país que, sejamos francos, não tem a cultura do esporte correndo na veia.

Mais do que isso: ganhamos mídia e reconhecimento. De repente, aquele esporte que ouvia de emissoras "nós só falaremos do Dakar quando um brasileiro morrer" (na morte do francês Bruno Cauvy no começo dos anos 2000) passou a fazer parte da agenda da imprensa nacional, pelo menos nos meses de julho/agosto e dezembro/janeiro. É pouco? É. Mas já é muito, principalmente levando em conta que os campeonatos nacionais ainda não têm uma fundação bem resolvida. Hoje eu posso, não sem orgulho, fazer esteira enquanto vejo o Bom Dia, Brasil falando sobre o Sertões, colocando os nomes de pessoas caras a mim ali na telinha. Hoje eu posso receber uma mensagem de um amigo falando "Profissão Repórter na Globo: reportagem sobre o maior rally do mundo (sic) =)".

Ainda falta muito? Falta. Bastante. O tema rali ainda passa longe de vários jornalistas especializados em automobilismo, mas ganhou espaço. Um exemplo? Fernando Silva, do Grande Prêmio, é um grande entusiasta de rali e já deu as caras em duas edições do Sertões, com coberturas muito bacanas para um dos maiores sites de automobilismo do Brasil (inclusive com uma boa entrevista com o mito Peterhansel, assim que eu achar o link posto aqui).

Só me paira uma dúvida de vez em quando: o quanto a própria comunidade ralizeira quer isso? Algumas discussões nas últimas semanas me fizeram por em xeque essa vontade. Será que estamos prontos para correr atrás do profissionalismo necessário para crescermos ainda mais? Ou será que passaremos o resto da vida reclamando dos carros gringos que vêm correr o Sertões?

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Onze de setembro, onze anos depois

O dia 11 de setembro tem se tornado um dos maiores clichês do ano. É sempre a mesma coisa: onde você estava, com quem, fazendo o quê e, mais importante, como esse dia mudou o mundo. Pois hoje estava contando a velha história-sem-história (eu tinha dez anos, afinal, e ninguém ia sair contando uma coisa dessas em plena manhã de aula) e fiz, pela primeira vez, uma triste reflexão: esse foi o meu primeiro contato com essa realidade cruel do mundo.


De repente, tudo deixava de ser uma coisa cor-de-rosa para ganhar nuances de cinza. Alguém havia sequestrado dois aviões e jogado-os contra dois prédios lotados de gente. Era crueldade demais. E era real.

Depois disso, palavras como guerra e terrorismo tornaram-se comuns no dia-a-dia. Surgiu o tal do Bush que invadiu o Afeganistão atrás daquele tal de Bin Laden, que, diziam, era um dos responsáveis pelo plano pra tacar os aviões e por mais um monte de outras coisas ruins. Mas o tal Bin Laden tinha sido treinado dos EUA, era amiguinho deles em um passado não muito distante. O mundo era um lugar muito mais difícil, sujo e cruel do que eu imaginava. Até então, a ruindade do homem estava em jogar papel na rua, matar animais. Não tinha essa de matar dezenas, centenas, milhares de inocentes. Mas aconteceu. E continuou a acontecer, e continua a acontecer.

E o que ficou disso tudo? A tristeza por descobrir, hoje, que minha infância começou a acabar naquele onze de setembro.